BitConnect: conheça a história da plataforma de criptomoeda acusada de fraude

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Acusações de fraude fizeram a plataforma fechar parcialmente em janeiro de 2018. Foto: divulgação Acusações de fraude fizeram a plataforma fechar parcialmente em janeiro de 2018.

Entenda a história da BitConnect, conheça a BitConnect Coin e saiba como a empresa acabou envolvida em suspeitas de esquema de pirâmide financeira.

Já é fato que as criptomoedas são o assunto do momento, como é o caso do Bitcoin hoje. De um lado, há aqueles que falam entusiasmados sobre os ganhos expressivos nos últimos meses. De outro, muitas pessoas têm interesse em começar a investir, mas esbarram no receio de que esse mercado seja muito arriscado.

Além do risco por não serem regulamentadas, as criptomoedas também afastam investidores com medo de uma bolha especulativa, ataques de hackers e esquemas de fraude. De fato, esses acontecimentos negativos podem provocar grandes prejuízos aos investidores.

No caso dos esquemas fraudulentos, engana-se quem acredita que eles surgiram recentemente, junto com as criptomoedas. Na verdade, uma das falcatruas financeiras mais famosas  é o esquema ponzi, ocorrido no início do século XX.

Criado por um imigrante italiano que havia acabado de chegar aos EUA, chamado Charles Ponzi, o esquema prometia lucros acima da média, de até 100% em 90 dias. Como era de se esperar, o plano não se manteve por muito tempo e o esquema foi denunciado em jornais da época.

Devido à grande comoção na década de 1920, até hoje fraudes que envolvem operações de investimento são caracterizadas como esquema ponzi. Mesmo depois de tantos anos, vez ou outra surgem novas iniciativas fraudulentas.

No caso das criptomoedas, um dos episódios mais famosos ligado a uma fraude financeira foi o da BitConnect. A plataforma responsável pela moeda virtual foi acusada de oferecer um retorno que se sustentava apenas com a entrada de novos participantes, se assemelhando a um esquema de pirâmide.

BitConnect: o que é

Segundo o site oficial , que ainda está no ar, a BitConnect “é uma plataforma de código aberto, criada para fornecer múltiplas oportunidades de investimento, abrindo a possibilidade para conquistar a tão sonhada estabilidade de renda em um mundo muito instável”.

Apesar da grande repercussão, pouco se sabe sobre a empresa BitConnect. Em comparação a outras empresas do ramo, não há informações oficiais sobre os criadores da plataforma nem documentos que apresentem o negócio de forma clara, iniciativa bastante comum no ramo.

Por mais inovadora e interessante fosse a proposta da empresa, muitos investidores acabaram ficando com um pé atrás por causa da pouca informação encontrada sobre a BitConnect. Era o primeiro sinal de que algo poderia dar errado no futuro.

Lançada em 2016, a empresa entrou no mercado para ser a primeira plataforma de empréstimo de Bitcoin peer-to-peer. No entanto, esse objetivo ficou em segundo plano com o lançamento da BitConnect Coin.

BitConnect Coin: conheça essa criptomoeda

O ICO da BitConnect Coin teve início em 15 de novembro de 2016 e terminou em 31 de dezembro do mesmo ano. Além da campanha de marketing para anunciar a novidade, a empresa distribuiu quase 5 milhões da nova criptomoeda para investidores e membros da comunidade BitConnect.

Segundo a própria empresa, a BitConnect Coin (BCC) é “uma criptomoeda descentralizada, orientada para a comunidade, de código aberto e peer-to-peer”.

O maior diferencial divulgado pela BitConnect, e que atraiu muitas pessoas, é o fato de que qualquer pessoa que tenha BCC em sua carteira poderia receber juros sobre seu saldo em troca de ajudar a manter a segurança da rede.

A proposta permitia que um investidor pudesse ganhar dinheiro com a nova moeda de duas formas:

  • Sendo pago em BCC por produtos ou serviços prestados, caso a outra parte também possuísse a moeda em carteira
  • Mantendo uma quantia de BCC em carteira, como uma forma de empréstimo à própria empresa, que por sua vez iria investir em Bitcoin. Com isso, se os BTC se valorizassem, a empresa teria lucros e dividiria com os usuários de acordo com os valores de BitConnect Coin que tivessem em suas carteiras.

Com um discurso bem persuasivo sobre a possibilidade de obter ganhos altos, sem abrir mão da segurança, e conquistar a tão sonhada estabilidade financeira, sem depender de intermediários, a proposta da BCC ganhou a atenção do mercado e, consequentemente, de vários investidores.

A possibilidade de ter lucros expressivos, bem acima da média do mercado convencional, foi a principal forma de atração. Até hoje no site da BitConnect consta a promessa de que “a partir do momento em que um investidor adquire uma quantidade de BCC, ela se torna um ativo com juros de até 120% de retorno por ano”.

A proposta não passou despercebida e, em poucos meses, a criptomoeda bateu recordes de valorização. No início de março de 2017, a BCC valia menos de 1 dólar. Todavia, no fim do ano passado, a moeda digital chegou a valer mais de US$450, registrando um crescimento de 40.000% em 9 meses.

Entretanto, a onda de euforia não durou muito tempo depois disso. Com as denúncias de que a BitConnect estaria envolvida em um esquema fraudulento, a moeda ligada à plataforma desvalorizou-se de forma exponencial.

De uma cotação de US$431,79 em 07 de janeiro deste ano, a BCC passou a valer menos de US$2 no último dia 20 de março, segundo informações do site CoinMarketCap. Para efeito de comparação, a criptomoeda agora vale algo em torno de 0,0002 Bitcoin.

Veja a trajetória da cotação da BitConnect Coin no gráfico abaixo:

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BitConnect: pirâmide financeira é uma suspeita

Não demorou muito para que a promessa de pagamento de juros de 1% ao dia para quem investisse em BitConnect Coin, fosse alvo de dúvidas sobre seus reais retornos. Os membros da própria comunidade de criptomoedas começaram fazer alertas sobre a possibilidade de fraude.

Logo depois, os esquemas suspeitos da BitConnect caíram no radar de órgãos reguladores dos Estados Unidos. A empresa chegou a receber ordens das comissões de títulos dos estados do Texas e da Carolina do Norte para que a plataforma encerrasse suas atividades. As entidades afirmaram que faltavam dados financeiros específicos e eram veiculadas informações enganosas.

Até mesmo personalidades da área, como o fundador da criptomoeda Ethereum, Vitalik Buterin, chegaram a duvidar dos retornos anunciados pela BitConnect. Buterin afirmou nas redes sociais que se uma empresa promete pagar 1% de juros ao dia, trata-se de um esquema ponzi.

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Diante das suspeitas, muitos investidores passaram a perceber que o modelo de remuneração prometido pela empresa só poderia ser mantido com a entrada de novos participantes. Inclusive, uma propaganda nas mídias sociais encorajava usuários a encontrar novos investidores para a plataforma.

Em vista disso, a empresa foi denunciada diversas vezes por gerenciar um possível esquema de pirâmide. Após alguns meses de controvérsia, em janeiro de 2018, a BitConnect decidiu encerrar sua plataforma de empréstimos.

Os responsáveis pelo negócio não chegaram a assumir a fraude e afirmaram em nota que a plataforma foi parcialmente desativada devido à pressão negativa vinda de órgãos reguladores do mercado e da imprensa.

No anúncio, além de informar sobre o encerramento, a BitConnect explicou que todo o saldo dos usuários foi convertido em BitConnect Coin, de acordo com a cotação de US$ 363,62 por moeda - valor médio dos 15 dias anteriores ao anúncio. A informação causou grande polêmica, já que quem tinha saldo em dólares na plataforma passou a dispor dessa quantia apenas em BCC.

No dia da divulgação, a cotação da BitConnect Coin despencou 95% em poucos minutos, saindo do patamar de US$330 para menos de US$10. Além disso, o fórum da empresa no Reddit precisou ser encerrado uma vez que diversos usuários postaram mensagens indignados com as perdas ocorridas.

BitConnect hoje: processos judiciais estão em curso

Com o encerramento das operações de empréstimos, a BitConnect passou a manter na plataforma apenas o serviço de carteira, além de notícias sobre o mercado e conteúdos educacionais.

Mas mesmo com o encerramento parcial, vários investidores lesados decidiram buscar reparação de danos na justiça. No final de janeiro, 6 investidores entraram com uma ação coletiva contra a BitConnect pedindo milhões de dólares como indenização.

Com perdas coletivas somando mais de U$770.000, o grupo acusa a plataforma de manter um esquema ponzi e estar envolvida em diversas violações criminais e civis. Entre elas: práticas comerciais injustas, incentivo fraudulento e conspiração civil.

Entre os acusados, está Gleen Arcano, diretor da BitConnect International PLC. Além dele, também podem ser processados pelos os ex-investidores várias pessoas que promoviam o esquema através de redes sociais ou outros canais.

Em fevereiro, um novo processo teve início contra a empresa no estado da Flórida nos EUA. Segundo registros públicos, os principais acusados são Gleen Arcano e Ryan Maasen, gestores da BitConnect. A ação denuncia ambos pelo envolvimento com a venda de títulos não registrados e de cometer fraude ao exagerar sobre os possíveis retornos aos investidores.

Enquanto os processos se desenrolam na justiça, a BitConnect já está promovendo outra criptomoeda no mercado, a BitConnectX (BCCX). A novidade da polêmica empresa funciona igual a outras criptomoedas em circulação, prometendo transferências de baixo custo, mas com o mesmo diferencial de sua antecessora: pagamento de juros aos participantes.

Diante de toda a controvérsia envolvendo a empresa, muitos investidores ainda estão receosos em relação à nova moeda digital promovida pela BitConnect. Outros passaram a se perguntar se até mesmo Bitcoin é seguro. E essa atitude cautelosa não é de todo negativa.

Diante de um mercado ainda muito recente e pouco regulamentado, como o de criptomoedas, a primeira orientação é estudar bastante as possibilidades e observar a dinâmica do investimento antes de começar a investir acreditando em promessas excessivamente otimistas.