O caos das estradas bate nas bolsas

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O caos das estradas bate nas bolsas (Foto: Divulgação) O caos das estradas bate nas bolsas

Mais um dia está indicando um mergulho do Ibovespa e uma alta meteórica para o dólar e os juros futuros. O caos que o país vive nas estradas está levando os agentes a posições mais defensivas em relação ao risco Brasil. O dólar cotado a R$ 3,698 está retomando a trajetória que foi interrompida pelas atuações do Banco Central (BC) nos swaps. A percepção de que o governo brasileiro está com dificuldades para se arrastar até o final do mandato cresceu fortemente. 

De acordo com Pedro Paulo Silveira, Economista-Chefe da Nova Futura Investimentos, o estouro das contas públicas, que seria mitigado pela recuperação da economia, pela queda dos juros, cortes das despesas e reformas, está firme em uma trajetória explosiva, realimentada pela decisão de cobrir as demandas dos caminhoneiros com cortes de impostos. A queda do euro, que bateu a mínima, acelera essa tendência. Lá, os juros dos títulos de dez anos da Itália subiram de 1,72% para os atuais 2,60%, em uma alta de 80 bps, por conta das incertezas quanto à capacidade do governo atual se articular para governar e lidar com a alta dos juros globais. 

“A dívida italiana é gigantesca e pode, junto com as de Portugal e Espanha, disparar um movimento mais intenso de correção dos juros soberanos e moedas. É, talvez, o calcanhar de Aquiles no soft landing programado pelos BCs globais. As moedas emergentes estão caindo de forma sincronizada”, ressaltou Silveira.

O movimento dos caminhoneiros mostrou que há um limite para a continuidade da política de preços levada a cabo pela Petrobrás. Realizar reajustes diários em uma economia desindexada parece pouco popular, sobretudo em um movimento de alta. Os contratos executados pelas empresas de transporte não têm garantia de remuneração, já que o custo do diesel é parte fundamental dos resultados. Como as empresas não conseguem repassar esse risco para seus clientes, as suas margens ficam expostas em um ambiente tão instável. Ainda que seja a política preferida pelo mercado, tudo incida que ela é inviável para boa parte dos clientes do monopólio. 

Para Pedro, a derrota do governo jogou os custos do ajuste para os sobrecarregados contribuintes. A questão dos riscos, levantada pelas empresas do setor, continua de pé, apesar da trégua atual. As ações da Petrobrás devem ter outro pregão de queda, como resultado do aumento da percepção dos riscos em relação ao Brasil, da queda dos preços internacionais do petróleo e, não menos importante, pelo aumento da incerteza quanto à manutenção da atual política de preços para os combustíveis. Tudo indica que o mercado vai ver de forma muito negativa a interrupção dos ajustes diários dos combustíveis, seria uma “intervenção política na gestão técnica” da empresa. 

Ocorre, porém, que os consumidores podem ter chegado em sua tolerância em relação aos aumentos diários. Além disso, o mercado pode considerar o horizonte eleitoral na manutenção de Parente na direção da empresa. A Petrobrás tem um viés de baixa para as próximas semanas.

O petróleo perdeu quase US$ 8 em uma semana como resultado do aumento da possibilidade de aumento da produção da OPEC + Rússia, a reunião do cartel em Viena, pode confirmar a disposição de aumentar em US$ 1 milhão. Essa volatilidade nas cotações é natural e deve continuar subindo em resposta à normalização da política monetária, das oscilações na demanda global e, muito importante, às tensões geopolíticas. O Ibovespa está despencando mil pontos na abertura. A tendência de queda é reforçada pelo aumento da percepção de riscos em relação ao Brasil, turbinada pela queda das moedas emergentes e pelas eleições no Brasil. 

O movimento de paralisação dos transportes foi mais um gatilho e expõe a fragilidade de qualquer programa governamental no momento. As taxas de juros mais longas estão subindo com força, mostrando aumento da aversão ao risco Brasil. Os juros para 2021 estão saindo a 8,80% e os para 2025 a 10,95%. Essa alta dos juros coloca duas questões em relação à queda da SELIC: os recentes ganhos para o financiamento da dívida e os efeitos da queda a retomada da atividade econômica estão quase eliminados.