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O problema não foi o piloto

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Depois de um tempo sem inspiração, retorno comentando um desastre. Em aviação, tais acontecimentos são uma porta para a descoberta e o aperfeiçoamento do sistema como um todo. Assim, se há algo que não me impressiona é ver imagens de acidentes aéreos. Na maioria dos casos, e o voo AF447 é uma exceção, a explicação para as tragédias sempre esbarra em uma sequências de erros especialmente humanos. A queda do A321 da Airblue, ontem, em Islamabad, é um desses exemplos que não me fazem ser menos passageiro do que sou. A explicação atribuída pelos especialistas, e isso passa longe de ser uma especulação, aponta como a causa do choque do jato com a montanha na aproximação do aeroporto o chamado CFT, ou desorientação espacial, um problema que acomete pilotos, fazendo com que momentaneamente percam a referência em relação ao solo.

A questão não é tão simples assim. O A321 é um avião um pouco maior que o A320 e, por isso mesmo, tem razões de descida diferentes que os irmãos menores. No momento do choque, a visibilidade não era boa. Atribui-se, portanto, a uma questão de leitura de dados incorreta o fato de o jato ter sido visto por moradores voando baixo demais na área errada. Falar em CFT, na realidade e simplificar algo que pode estar escondendo uma falha mais grave, esta de treinamento e domínio do equipamento. Conheço pilotos de Airbus e sei que todos aprendem a comandar o equipamento com um pé atrás, prontos a qualquer momento para a anularem a interface de comando dos computadores que os deixa apenas como gerentes de operação.

O CFT no caso do Airblue só poderia ser uma explicação lógica se o piloto estivesse tentando pousar no aeroporto em visual, o que não era possível no momento, Em locais com menos tecnologia de apoio, é comum que o cockpit negocie com o computador uma aproximação calculada em cima do cruzamento com os dados de pressão atmosférica com os de altitude e posição geográfica. Isso daria ao computador uma rampa virtual a ser seguida até o pouso. O que se viu nas imagens, com destroços em pequeno tamanho, área de choque pouco extensa e grande carbonização, indica que o piloto em nenhum momento percebeu que estava baixo demais. Poderia, por exemplo, olhar o altímetro para ter alguma ideia, mas isso não daria a correção necessária. O radar igualmente poderia acusar o obstáculo, mas o ganho de sinal impede que haja tempo de reagir.

É bem possível que o piloto tenha sofrido com o CFT. Mas, como na maioria dos acidentes, este não tenha sido a causa do desastre, mas o primeiro ponto de uma sequência que levaria ao choque com as montanhas.
 

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