Leia o livro e veja o filme ou o contrário? Para mim, é sempre o contrário. O problema de ler o livro antes é que o filme perde o impacto - exceto quando o texto é superior ao que vai para a tela, ou a adaptação é totalmente diferente, uma obra única e de tanta qualidade quanto a forma original da história. Isso aconteceu com As Viúvas de Sexta-Feira, de Claudia Piñeiro (Alfaguara, R$ 39,90), cuja versão cinematográfica assinada por Marcelo Piñeyro, argentino, como a escritora, mas sem qualquer parentesco com ela, tem características próprias e interessantíssimas.
Às vésperas da entrega do Oscar, as livrarias estão repletas de histórias que deram origem a filmes, muitos com os cartazes de cinema nas capas, para chamar a atenção do público e induzir o leitor a restringir sua própria imaginação quanto a personagens e ambientes. Preguiçosa, adoto as feições dos atores nos personagens – exceto quando no livro eles têm mais força que no filme, como Ripley, o anti-herói de Patricia Highsmith, que já foi interpretado por Alain Delon, John Malkovich, Matt Damon e Dennis Hopper, entre outros. Preferi bloquear a imagem e criar meu próprio escroque. O mesmo aconteceu com as personagens de A Resposta (Bertrand Brasil, R$ 44), de Kathryn Stockett, mas somente porque li na época de seu lançamento por aqui, há cerca de um ano. Na nova capa estão as atrizes Viola Davis, Octavia Spencer e Emma Stone, que vivem no filme as três narradoras da trama ambientada no Mississipi, no início da década de 1960, quando a legislação segregacionista dominava a região Sul dos Estados Unidos. Depois de vender mais de cinco milhões de cópias no mundo inteiro, chegou às telas como Histórias Cruzadas, que vem garantindo premiações ao elenco.
A capa de Os Descendentes (Alfaguara, R$ 34,90) traz George Clooney numa praia do Havaí. No filme, ele encarna Matthew King, um homem atordoado por um drama bastante comum: a mulher está em coma, depois de um acidente de barco, tem duas filhas adolescentes para criar e uma partilha de bens de família a decidir. A amargura se alterna com momentos ternos nesta novela de estreia da havaiana Kaui Hart Hemmings, que trata do choque com o inesperado no cotidiano da família. O último capítulo é belíssimo, sem perder o “pé no chão” com a vida real.
O astro Ryan Goslling na capa de Drive (Leya, R$ 29,90), de James Sallis impede o leitor de imaginar o dublê que se torna motorista para assaltantes com outro rosto que não o do ator. O thriller, ágil como um filme de ação, tem personagens completamente amorais que se enredam em uma trama densa e violentíssima. Já a nova edição de O espião que sabia demais (Record, R$ 44,90) tem Gary Oldman, indicado ao Oscar de melhor ator pela interpretação de George Smiley, o agente secreto criado pelo veteraníssimo John Le Carré. Smiley não tem o charme dos espiões de cinema pós-James Bond, nem suas aventuras se desenrolam em alta velocidade. Tudo é lento e realista, fruto de investigações e infiltrações dos tempos da Guerra Fria.
Vale a pena investir em capas cinematográficas de livros. Aparentemente, sim. Já se esgotou a nova tiragem de Cavalo de Guerra (WMF Martins Fontes, R$ 29,80), de Michael Morpugo, com fotografia de uma cena do filme de Steven Spielberg. O épico fala da utilização de animais na Primeira Guerra Mundial e também da passagem para a vida adulta, um dos temas favoritos do diretor.
O universo da adolescência também conquistou Martin Scorcese, responsável pela versão cinematográfica de A invenção de Hugo Cabret (SM Edições, R$ 42), livro que, na introdução, convida o leitor a ultrapassar suas mais de 500 páginas ilustradas como se fosse um filme. As imagens que ocupam dois terços do volume formam um perfeito storyboard - o “rascunho” gráfico montado pelos cineastas antes de filmarem as sequências determinadas em roteiro. O escritor e ilustrador Brian Selznick, neto do celebradíssimo produtor David O. Selznick, faz referências a obras de cineastas diversos, entre eles Georges Mièles, para contar a história de um menino que sobrevive de pequenos furtos em Paris - e que se tornou o campeão das indicações a Oscar deste ano.









