Blockchain e o poder de transformação do mundo digital

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Blockchain e o poder de transformação do mundo digital (Foto: Pexels) Blockchain e o poder de transformação do mundo digital

Imagine o fim dos tabelionatos de notas e dos cartórios de registros. Pense em um mundo sem intermediários ou custos desnecessários. Agora imagine todos os gastos de um governo sendo monitorados em tempo real pela população, dificultando a corrupção e garantindo um melhor uso dos recursos. Pois bem, a tecnologia do blockchain é capaz de tornar isso uma realidade. Mas afinal, você sabe o que é blockchain?

De acordo com Manav Gupta, podemos afirmar que blockchain é como um livro-razão (aqueles livros contábeis que nos parecem tão complexos) compartilhado e distribuído, que facilita o processo de registro de transações e rastreamento de ativos em uma rede comercial. Um ativo pode ser tangível (casa, carro, dinheiro, propriedade) ou intangível, como por exemplo a propriedade intelectual (patentes, direitos autorais ou marcas). É possível afirmar que, praticamente qualquer coisa de valor pode ser rastreada e comercializada em uma rede blockchain, reduzindo os riscos e cortando custos para todos os envolvidos.

Tecnicamente falando, no blockchain as transações são armazenadas em blocos ligados entre si a fim de formar uma cadeia. Estas transações são adicionadas ao “livro-razão”, que é compartilhado e replicado com todos os membros da rede. Assim, cada um desses membros pode validar as transações e também verificar a identidade dos participantes sem precisar de intermediários. É importante esclarecer que todos os membros devem concordar se o bloco é válido ou não, usando algoritmos de consenso, para que o bloco seja aceito. Regras de negócio e contratos inteligentes também podem ser criados na plataforma. A questão é: e como o uso da tecnologia de blockchain pode transformar o mundo? A pergunta pode parecer um tanto megalomaníaca, mas resposta não é. Entusiastas da tecnologia realmente acreditam que ela vai transformar o mundo e que realmente tem potencial para fazer com a área financeira o que a internet fez com a indústria de mídia.

De uma maneira mais simples, Bitcoin é uma moeda, como o euro ou real, mas que não existe fisicamente e é totalmente virtual. Sua emissão também não é controlada por um banco central e ela é produzida de maneira descentralizada por dezenas de computadores. Apesar de ser considerada uma tecnologia ainda recente, não dá para fechar os olhos e não enxergar o grande potencial que existe nela. Além de reinventar a indústria financeira, tem se mostrado cada vez mais confiável e oferece, de forma simples e sem intermediários de estabelecer a propriedade de dinheiro, informações e objetos, como um carro ou uma casa.

Se o Bitcoin, a criptomoeda que tem dominado o noticiário nos últimos meses, ou outras criptomoedas já em circulação serão capazes de sobreviver e se consolidar ainda é uma pergunta que o tempo responderá. Um fato indiscutível é que a tecnologia de blockchain veio para transformar a forma como registramos transações no mundo digital. No cenário com utilização de blockchain, todos os contratos, processos, tarefas e pagamentos terão um registro e uma assinatura digital que poderão ser identificados, validados, armazenados e compartilhados. Com isso, intermediários como tabeliães, corretores e bancos podem se tornar desnecessários e são as aplicações desse novo mundo digital que ainda estão sendo desenvolvidas. 

De fato, ninguém ainda é capaz de prever exatamente como se darão as transações nesse novo contexto. Como usualmente ocorre com os avanços tecnológicos, estamos aprendendo com o processo e é de se esperar que muitas iniciativas não continuem existindo, mas que abram caminho para algo ainda maior. 

Ocorre que, quase dez anos após sua introdução como a tecnologia por trás do Bitcoin, muito pouco do potencial do blockchain foi realmente desvendado até o momento. E há uma razão simples para isso: se o real potencial do blockchain está em alterar como fazemos as coisas por soluções mais eficazes, também é verdade que isso levará tempo. Embora as ferramentas e burocracias vigentes estejam obsoletas frente à nova norma, os entraves legais e institucionais só poderão ser superados de forma gradual. Não estamos falando de uma tecnologia disruptiva que substituirá um modelo de negócio tradicional por uma solução de baixo custo com apenas um “toque de mágica”. É fato que estamos frente a um desafio extraordinário que remodelará a forma como vamos lidar com as transações de valores. É a transformação digital em sua mais pura essência.

Essa adoção gradual da tecnologia parece ganhar força com alguns fatos. Talvez o principal deles seja a participação de instituições como Barclays, Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC), Credit Suisse, HSBC, Mitsubishi UFJ Financial Group (MUFG) e State Street, unindo-se a UBS, BNY Mellon, Deutsche Bank, Santander e NEX na iniciativa com a startup britânica Clearmatics em um projeto denominado Utility Settlement Coin (USC).

Este projeto tem como objetivo viabilizar que bancos centrais contem com criptodivisas no futuro. Ou talvez esteja no lançamento da primeira versão do Corda, plataforma da empresa R3, um consórcio global formado por várias instituições financeiras para desenvolver uma solução baseada em blockchain capaz de atender aos requisitos da indústria de serviços financeiros. 

Ao mesmo tempo, estamos vendo algumas iniciativas de bancos centrais ao redor do mundo, inclusive no Brasil, que visam utilizar a tecnologia em sistemas de liquidação. Por aqui, o estudo ainda se limita a um Sistema Alternativo de Liquidação de Transações (SALT) que serviria de contingência à plataforma de liquidação primária do Banco Central brasileiro. 

É muito importante reconhecermos que, aos poucos, a tecnologia passa a ser considerada para usos com impacto efetivo na vida de todos. Não estamos mais falando de moedas virtuais alternativas, com aplicação real limitada e sujeitas a enormes variações especulativas. Os exemplos de iniciativas em curso são muitos e alguns casos de aplicação mereceram destaque neste artigo. Agora, cabe a nós acompanhar e, se possível, nos tornar agentes ativos deste processo. Só não podemos subestimar o poder de transformação desta tecnologia.

Por Ricardo Bueno é diretor de Operações na Dedalus.