Saldo da balança comercial de setembro foi de US$ 6,2 bi

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Saldo da balança comercial de setembro foi de US$ 6,2 bi (Foto: Pexels) Saldo da balança comercial de setembro foi de US$ 6,2 bi

O saldo da balança comercial de setembro no valor de US$ 6,2 bilhões foi o maior da série histórica mensal desde 2001, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV). No acumulado do ano até setembro, o superávit de US$ 42,2 bilhões foi o segundo maior e deverá atingir até o final do ano um valor ao redor de US$ 58,5 bilhões. 

A melhora no saldo é explicada pela queda nas importações, que recuaram 25,5% na comparação interanual do mês de setembro e 14,4% na do acumulado do ano até setembro. Em sentido oposto, em termos do saldo comercial, as exportações caíram, com variação de 9,1% (setembro 2020/19) e 7,7% (jan-set 2020/19).

A recessão mundial e doméstica explica o cenário de recuo nos indicadores de valor. Em adição, a acentuada desvalorização da taxa de câmbio efetiva real ajuda a conter as importações e barateia os preços dos produtos brasileiros no comércio exterior. Entre 2019 e a média de jan-set de 2020, a desvalorização real foi de 28%. Se fizermos a mesma comparação entre 2011/jan-set 2020, a desvalorização foi de 74%. 

Observa-se, porém, que a forte desvalorização iniciada em março de 2020 onera os custos de setores que utilizam insumos e componentes importados, como é o caso do setor automotivo e eletrônico. A agricultura é também onerada em termos de seus insumos; no entanto, o peso dos importados para este setor é menor e a demanda chinesa tem assegurado o crescimento das nossas exportações. 

Outra questão relevante é como os operadores de comércio exterior estão analisando a desvalorização. Comércio exterior exige um olhar que vai além do curto prazo. Nesse contexto, mesmo com a forte desvalorização do real, os exportadores e importadores tendem a ser mais cautelosos e podem estar adiando decisões, como, por exemplo, a substituição de fornecedores estrangeiros por domésticos.

A melhora do saldo comercial pelo lado das exportações está associada à contribuição da China. No auge do boom das commodities no início da década de 2010, o superávit com a China chegou a explicar 39% do saldo total da balança em 2011, que foi de US$ 29,8 bilhões. Desde 2018, o percentual de contribuição da China tem aumentado e chegou a 68% no acumulado do ano até setembro de 2020, quando o superávit do Brasil com a China foi de US$ 28,8 bilhões.

O eixo do dinamismo do comércio exterior se deslocou para a Ásia, que explicou 49% das exportações e 35% das importações de janeiro a setembro de 2020. Nesse mesmo período, os percentuais da União Europeia foram de 14% (exportações) e 17% (importações). Essas porcentagens são inferiores ao da China, que são de 34% de exportações e 21% de importações. O efeito pandemia, que atingiu mais fortemente a economia europeia do que a chinesa, pode ter aumentado as diferenças nas participações, mas não é somente isso, já que a participação da China já superava a da União Europeia como destino das exportações brasileiras desde 2015.

Índices de preços e volume

No mês de setembro, as operações incluindo as plataformas de petróleo influenciaram os resultados. Nas exportações, a variação interanual foi positiva no valor 3,7% sem as plataformas e negativa (-4,0%) com as plataformas. Nas importações, o volume importado recuou 18,7% (com plataformas) e 10,4% (sem plataformas) na comparação mensal.

A inclusão ou não das plataformas não muda, contudo, a contribuição positiva dos fluxos de comércio exterior para o PIB. Com plataformas, a diferença entre a variação das exportações e importações no acumulado do ano até setembro foi de 11,6 pontos positivos, enquanto sem plataformas foi de 8,6 pontos positivos. Não é um resultado para se comemorar, pois o saldo positivo decorre principalmente da variação negativa das importações. As exportações, embora cresçam, têm a maior variação registrada de 2,1%, quando se excluem as plataformas na comparação do acumulado do ano até setembro de 2019 e 2020. 

Os ganhos nas exportações continuam sendo exclusivamente devido ao grupo de commodities. Em valor, as exportações de commodities aumentaram 4%, as não commodities recuaram 26,8% (com plataformas) e 11,3% (sem plataformas) na comparação interanual de setembro de 2019 e 2020. Em termos de volume, as exportações de commodities aumentaram 11% e as de não commodities recuaram 22%, nesse mesmo período. Se retirarmos as plataformas, o resultado continua negativo (-5,5%). Os preços das commodities registraram queda no agregado, mas algumas commodities como minério de ferro, laminados, carnes, café mostram comportamento favorável nos preços. 

Num cenário de recuperação da economia mundial, a tendência de melhora nos preços das commodities deverá permanecer. 
Entre os meses de setembro, o volume exportado do setor extrativo aumentou 10,8% puxado pelas exportações de minério de ferro que cresceu em volume 39,5% e 20,2% em termos de preços. Em seguida, com variação positiva, temos a agropecuária com aumento no volume de 6,7%. Observa-se que, na comparação do acumulado do ano, o setor de agropecuária lidera seguido da extrativa. Apesar do estímulo da desvalorização cambial, a indústria de transformação repete o mesmo comportamento de meses anteriores, com queda em relação ao mesmo mês do ano de 2019, o que leva a um recuo de 6,2% no acumulado do ano até setembro. 

Nas importações, o único setor com registro de variação positiva é a agropecuária. Para a queda no setor extrativo, contribuiu a retração de 33,7% nas compras de petróleo e derivados na comparação mensal de setembro e de 25,1% entre os acumulados no ano até setembro de 2019 e 2020.

Os volumes exportados por categoria de uso da indústria de transformação recuaram na comparação mensal e no acumulado do ano até setembro, exceto os bens não duráveis, que incluem as commodities dessa indústria e os bens de capital sem plataformas. O volume exportado de bens não duráveis cresceu 24,2% na comparação mensal e 20,7% no acumulado do ano. Seja na comparação mensal ou no acumulado do ano, observa-se que a maior queda no volume exportado foi nos bens duráveis de consumo quando consideramos as exportações de bens de capital sem plataformas. A importância do setor automotivo no grupo de bens duráveis, negativamente impactado pela crise Argentina, explica o desempenho desfavorável dessa categoria de uso, ao longo do ano.

Nas importações, todas as categorias de uso recuam, exceto os bens não duráveis, com aumento de 6,8% na comparação do mês de setembro e de 0,8% na comparação do acumulado do ano.

Finalmente, como já destacado, o aumento no volume exportado (sem plataformas) e, em especial das commodities, é explicado pelas vendas para o mercado chinês — 16,3% (setembro 2019/20) — e para o restante da Ásia — 22,1% (jan-set 2019/20).

A novidade do mês de setembro foi o registro de uma variação positiva de 11,3% para a Argentina, mas que não compensou as quedas dos meses anteriores, levando a uma variação negativa na comparação do acumulado do ano (-17%). O que explica o desempenho favorável do volume exportado na Argentina? Uma das principais contribuições foi a venda de veículos rodoviários que cresceu 309%, em valor, na comparação dos meses de setembro 2019/2020.

(Redação – Investimentos e Notícias)