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Tecnologia, Escolha e o Sétimo Reino

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Qualquer reflexão sobre o papel fundamental que a tecnologia exerce na vida contemporânea parece deixar um certo sentimento de ambivalência. Ao mesmo tempo que têm contribuído para salvar vidas, promover o bem-estar do ser humano, assim como oferecer mais liberdade de escolha, os avanços tecnológicos muitas vezes são alcançados a um custo ambiental nem sempre desprezível. Em artigo no portal Edge.org (da Edge Foundation, Inc.) intitulado “The Technium and the 7th Kingdom of Life”, publicado em 19/07/2007, Kevin Kelly, possivelmente um dos mais importantes pensadores contemporâneos dedicados a questões fundamentais sobre a natureza e a evolução da tecnologia, se propõe não apenas a analisar o significado da tecnologia em nossas vidas, mas sobretudo a investigar onde estaria situada a tecnologia no universo e na condição humana. Lembrando que a tecnologia, como um sistema em si próprio ao qual ele atribui a denominação de “technium”, parece ser uma força dominante na cultura de hoje e de tempos passados, Kelly se pergunta o que podemos esperar dessa força, e, em última análise, o que a governa. Vislumbrando objetivos tão ambiciosos quanto visionários, declara que sua intenção é buscar um melhor entendimento das conseqüências de longo prazo da tecnologia no mundo, colocando-a no mesmo patamar que a natureza biológica, a história do universo, a física do cosmo, e o próprio futuro.

É bem verdade que no senso comum há um sentimento de que cada nova tecnologia nos traz novos problemas assim como novas soluções. Deveríamos então buscar por uma conceituação dessa coisa chamada tecnologia de modo que pudéssemos atingir um grau mínimo de comprensão a ponto de sermos capazes de avaliar se essa aparentemente incessante geração de novidades seria algo a que deveríamos, ou sequer poderíamos, responder. Uma das respostas de puro reflexo aos problemas causados pela tecnologia seria a proibição. Desde a energia nuclear até os alimentos geneticamente modificados, para mitigar os efeitos detrimentais restringimos seu uso a certas fronteiras cuidadosamente delimitadas. Nesse mesmo espírito estaria o princípio de que há certas idéias que não deveríamos sequer cogitar, rumos de pesquisa que deveríamos proibir a priori, bem como tecnologias que nunca deveriam ser experimentadas fora do laboratório, talvez sequer dentro do laboratório. Uma teoria contrária, no entanto, defende que as proibições não funcionam e que não há como administrar a tecnologia simplesmente proibindo seu uso. Ao contrário, é preciso saber deslocar, substituir, adaptar, sintonizar, enfim, transferir uma tecnologia para um outro papel sem ter que eliminá-la.

Ainda com toda essa conceituação à nossa disposição, a bem da verdade não chegamos a um bom entendimento do que de fato é tecnologia, nem mesmo como defini-la. Segundo Alan Kay, “tecnologia é qualquer coisa inventada depois que você nasceu”. Para Danny Hillis, no entanto, “tecnologia é qualquer coisa que ainda não funciona propriamente”, numa referência ao que é novo e ainda não se tornou transparente. Conforme lembra Kelly, tecnologia no sentido moderno é um termo que não havia sido sequer inventado até que em 1829 o médico e botanista Jacob Bigelow publicou umas notas de aulas proferidas em Harvard sobre a “aplicação das ciências às artes úteis” sob o título “Elements of Technology”.  Não obstante, a humanidade já vinha fazendo tecnologia há séculos, mas ainda não tinha uma palavra para denominá-la. (Curiosamente, a primeira menção da palavra “tecnologia” em um pronunciamento de um presidente americano à sua população – o chamado “State of the Union Address” – somente ocorreu em 1952.)

Fundador e/ou editor de alguns dos mais importantes veículos sobre tecnologia (Whole Earth Review, Whole Earth Catalog, Wired), além de ter sido co-fundador da WELL, uma das primeiras e mais marcantes comunidades virtuais de que se tem notícia, Kelly é mais conhecido como o autor de “Out of Control: The New Biology of Machines, Social Systems, and the Economic World” (1994), no qual apresenta uma perspectiva sobre os mecanismos de organização complexa. Tendo sido leitura obrigatória para os principais atores da série de filmes “Matrix”, o livro gira em torno de temas como cibernética, emergência, auto-organização, sistemas complexos, e teoria do caos, e trata essencialmente de um suposto ponto de convergência de diversas áreas da ciência e da filosofia contemporâneas: a inteligência não é organizada sob forma de uma estrutura centralizada mas, é muito mais parecida com uma espécie de colméia de pequenos componentes.

Em livro a ser publicado em Outubro de 2010 com o título “What Technology Wants” (Viking Adult), assim como em palestra de mesmo título proferida ao portal TED.com em 2005 e outra também ao TED em Novembro de 2009, Kelly se refere à tecnologia como uma entidade “biológica”, a saber, o technium, com sua própria agenda e sua própria trajetória de longo prazo. Entre as características fundamentais do technium estariam: aumentar a diversidade, maximizar a liberdade e as escolhas, expandir o espaço do possível, incrementar a especialização, aumentar a densidade do poder e do significado, engajar matéria e energia, atingir ubiqüidade e liberação, aumentar a complexidade e a co-dependência social assim como a natureza auto-referencial, alinhar-se com a natureza, bem como acelerar a evolutibilidade. De modo geral, a tendência da tecnologia seria aumentar a diversidade de artefatos, métodos, e técnicas, levando a uma maior multiplicidade de possibilidades e de escolhas.

Ainda como parte de sua concepção da tecnologia como uma entidade biológica, Kelly sugere tratar tecnologias específicas como se fossem indivíduos ou espécies que fariam parte do sistema emergente denominado technium. Nesse sentido, um organismo tecnológico individual teria um tipo de resposta, mas numa ecologia composta de espécies que co-evoluem iríamos encontrar uma entidade elevada – o technium – que se comportaria de forma bem diferente de uma espécie individual. O technium seria um certo superorganismo de tecnologia que teria sua própria força, que por sua vez seria em parte cultural (influenciada por e influenciadora dos humanos), mas que também seria parcialmente não-humana, parcialmente não-indígena à física da própria tecnologia. E esse superorganismo seria como se fosse um filho da humanidade, que nós humanos teríamos que treinar imbuindo-o de certos princípios e valores que apreciamos antes que se tornasse mais autônomo do que seria hoje.

Enfim, argumenta Kelly, a tecnologia teria sua própria história natural, e não seria uma entidade meramente derivada do humano, pois suas raízes remontariam ao Big Bang.  O technium teria muitas características em comum com a vida biológica, a mente, e outros “sistemas extrópicos auto-sustentáveis próximos-ao-equilíbrio”. (A extropia seria definida como “o grau de inteligência, ordem funcional, vitalidade, energia, capacidade e impulso de um sistema vivo ou organizacional para o melhoramento e o crescimento.”) A tecnologia, portanto, poderia ser entendida numa escala cósmica como algo que teria se desenvolvido a partir do Big Bang.

Numa certo sentido, propõe Kelly, poder-se-ia pensar no technium como o sétimo reino da vida. Em outras palavras, além dos seis reinos (Archaebacteria, Eubacteria, Protista, Fungi, Plantae, e Animalia) definidos segundo a classificação de alguns biólogos tais como Lynn Margulis, o technium, enquanto sistema extrópico que se originou de animais, seria considerado o sétimo.

Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE