As ambições do Brics de assumir um papel maior de liderança climática, com base no sucesso obtido no mês passado nas negociações das Nações Unidas sobre a natureza, dependem de os países superarem a política frágil e as divergências arraigadas sobre dinheiro.
Como os Estados Unidos se retiraram dos esforços globais para combater a mudança climática e, de modo geral, mudaram seu foco para a promoção de interesses domésticos, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — conhecidos coletivamente como Brics — estão bem posicionados para influenciar os resultados de reuniões de alto nível este ano.
Eles estabeleceram suas credenciais ao propor uma minuta de texto que garantiu um acordo nas negociações da COP16 em fevereiro, em Roma, o que poderia liberar bilhões de dólares para ajudar a deter a destruição dos ecossistemas.
“Agora que o Brics conseguiu se unir dessa forma, isso influenciará nossas discussões em outras plataformas daqui para frente”, disse Narend Singh, vice-ministro de Silvicultura, Pesca e Meio Ambiente da África do Sul.
A África do Sul está aumentando seu perfil como detentora da presidência do G20 este ano, enquanto outro membro do Brics, o Brasil, se prepara para sediar as negociações climáticas da COP30 em novembro.
“O Brics pode preencher um espaço que precisa ser preenchido neste momento nas negociações multilaterais”, disse a negociadora-chefe do Brasil na COP16, Maria Angelica Ikeda.
Susana Muhamad, da Colômbia, presidente das negociações sobre a natureza da COP16, disse que os países do Brics estavam se posicionando para serem “construtores de pontes”.
“Eles estão tentando criar esse equilíbrio para representar o Sul Global diante dos governos de extrema-direita que estão surgindo nos EUA, na Itália e na Argentina”, disse ela.
“Entendo que há muitos países querendo se juntar ao Brics, porque é uma forma de, se você tiver que enfrentar algo como os EUA, não estar sozinho.”
Uma autoridade britânica presente nas conversações, que falou sob condição de anonimato, disse que outros países precisavam considerar o que a abordagem mais musculosa do Brics significava para as instituições globais.
Grupo Dispar
- O Brics precisa lidar com as divisões internas sobre política e finanças para ajudar a preencher o vácuo deixado pelos Estados Unidos sob o comando do presidente Donald Trump.
- A recusa do grupo em assumir as obrigações financeiras oficiais dos países doadores pode se tornar um obstáculo.
- Até o momento, o Brics tem resistido às exigências dos países desenvolvidos para que compartilhem a responsabilidade financeira.
- Os interesses nacionais divergentes entre o países do Brics, com a Rússia interessada em manter suas vendas de combustíveis fósseis, enquanto o Brasil pressiona os países a descarbonizarem mais rapidamente na COP30, também podem ser pontos de atrito.
- Um teste da solidariedade do grupo poderá ser feito em uma reunião em Bonn, em junho, onde os países começarão a definir suas posições de negociação na COP30.
- A conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento, em Sevilha, em junho, também poderá ser fundamental, com os ministros discutindo as metas globais de sustentabilidade e a reforma em andamento do sistema financeiro internacional.
“Esse será o ponto de entrada perfeito para que o Brics avance em seu objetivo de mudar a ordem global e ter uma voz mais forte no sistema financeiro global”, disse Leiter. “A nova posição dos EUA é quase um presente.”
Em curto prazo, é provável que o Brics renove as demandas por mais voz na administração do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), que desembolsa grande parte do financiamento mundial da biodiversidade.
A reforma do GEF é um dos focos, pois os países mais ricos cortam os gastos com desenvolvimento e exigem que os países ricos em natureza façam mais para proteger ecossistemas como a Amazônia.
“É um problema que, em vez de termos mais dinheiro direcionado à natureza e à biodiversidade, temos países atualizando suas armas nucleares ou comprando mais armamentos”, disse a brasileira Ikeda.
“Ao mesmo tempo, eles estão exigindo de nós, os países megadiversos, mais e mais obrigações.”
(Com Reuters)