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Meio Ambiente

Refinaria dos EUA é Acusada de Usar Gordura de Gado de Áreas Desmatadas na Amazônia para Combustível Sustentável

  • 14/11/2025 - 15h51
  • Atualizado 3 semanas atrás
  • 8 min de leitura

Uma refinaria do Texas que fornece combustível “verde” para companhias aéreas dos Estados Unidos tem comprado gordura animal de gado criado em terras desmatadas ilegalmente na floresta amazônica, de acordo com uma análise de dados de rastreamento de gado, entrevistas e relatos de testemunhas oculares.

Sediada na Louisiana, a Diamond Green Diesel, uma joint venture entre a produtora de biocombustíveis Darling Ingredients e a empresa de refino de petróleo Valero Energy, investiu centenas de milhões de dólares em uma refinaria em Port Arthur, no Texas, que transforma gordura bovina — chamada sebo — em uma alternativa mais limpa ao combustível de aviação e ao diesel à base de petróleo.

A Diamond Green Diesel é uma empresa importante no mercado de combustíveis sustentáveis dos EUA. De acordo com documentos, a empresa arrecadou mais de US$3 bilhões em créditos fiscais nos EUA para a produção de biocombustíveis desde 2022.

Mas entrevistas e documentos mostram que pelo menos duas empresas brasileiras que forneceram à Diamond Green Diesel dezenas de milhares de toneladas de gordura bovina desde 2023 estão comprando parte dela de frigoríficos que compraram animais de fazendas desmatadas ilegalmente na floresta amazônica.

Empresas aéreas como a JetBlue e a Southwest Airlines, que fecharam acordos com a Valero para usar o combustível de aviação “verde”, podem reivindicar o crédito pela redução de suas emissões porque a planta da Diamond Green Diesel é certificada por um acordo da Organização das Nações Unidas (ONU) para reduzir o impacto da aviação no clima, chamado Corsia.

O mercado global de combustível de aviação sustentável é pequeno, estimado em cerca de US$2,9 bilhões em 2025, segundo a empresa de análise SkyQuest Technology Group, em comparação com o mercado global de US$239 bilhões para combustível de aviação convencional. Mas espera-se que os incentivos governamentais ajudem o mercado a crescer exponencialmente, injetando mais recursos na indústria pecuária brasileira, a principal responsável pela destruição da floresta amazônica.

Pedro Piris-Cabezas, economista da organização sem fins lucrativos Environmental Defense Fund, disse que qualquer demanda adicional “poderia resultar na expansão dos rebanhos e impulsionar direta ou indiretamente o desmatamento e a degradação florestal”.

Também poderia violar a legislação brasileira. “Empresas que têm lucro com matérias-primas oriundas de uma cadeia produtiva que passa por ilegalidades, desmatamento, elas se responsabilizam também por essas ilegalidades”, disse Ricardo Negrini, procurador do Ministério Público Federal (MPF) que abriu diversas investigações governamentais sobre a indústria pecuária.

Diamond Green Diesel, Darling Ingredients, Valero Energy, Southwest e JetBlue não responderam a vários pedidos de comentários, incluindo perguntas detalhadas sobre a cadeia de fornecimento brasileira de sebo.

Para rastrear o comércio de sebo de fazendas desmatadas ilegalmente na Amazônia para a Diamond Green Diesel, foi feita uma parceria com o veículo investigativo sem fins lucrativos Repórter Brasil, que ajudou a analisar documentos judiciais que vinculam frigoríficos às plantas de sebo, registros corporativos, dados comerciais e registros governamentais de rastreamento de gado.

Também foram entrevistadas mais de uma dúzia de pessoas envolvidas em cada etapa da cadeia de fornecimento de sebo bovino, incluindo comerciantes, motoristas de caminhão, promotores, auditores e reguladores.

A Diamond Green Diesel obtém sebo de vários países, e não foi possível determinar quanto dele veio de fazendas em terras desmatadas ilegalmente na Amazônia.

GADO CONTAMINADO

Em 2022, o CEO da Darling Ingredients, Randall Stuewe, anunciou a aquisição, por cerca de R$2,8 bilhões, de diversas plantas no Brasil, incluindo quatro na região amazônica, que forneceriam “gorduras residuais para serem usadas na produção de diesel renovável e combustível de aviação sustentável”, de acordo com um comunicado emitido na época.

Foi descoberto que uma dessas unidades de processamento no Estado do Pará, chamada Araguaia, obtinha gordura bovina de pelo menos cinco frigoríficos que não passaram em uma auditoria realizada em maio de 2025 pelo Ministério Público Federal, por abater 20.000 cabeças de gado de áreas desmatadas ilegalmente.

Em 2023, a Araguaia exportou US$4,4 milhões em sebo bovino da Amazônia para a Diamond Green Diesel, de acordo com dados comerciais da Import Genius.

Em junho, um jornalista viu um caminhão com o logotipo da Araguaia dentro do frigorífico São Francisco, que não passou em uma auditoria por comprar gado de fazendas em terras desmatadas ilegalmente.

O motorista do caminhão, que falou sob condição de anonimato, disse que vinha recolhendo carcaças no frigorífico São Francisco e as entregando à unidade da Araguaia há dois anos. Dois outros caminhoneiros e dois funcionários do São Francisco confirmaram que o frigorífico era fornecedor do Araguaia.

A São Francisco não confirmou nem negou ser fornecedora da usina do Araguaia. A empresa afirmou que coopera com o Ministério Público Federal desde 2018 e que contratou uma empresa externa para monitorar sua cadeia de suprimentos.

A São Francisco obtém parte de seu gado indiretamente do Vale do Paraíso, uma fazenda que estava impedida de pastorear gado desde 2006 devido ao corte ilegal de cerca de 40 quilômetros quadrados de árvores, segundo o Ibama. Dados de rastreamento do gado mostram que o gado foi transferido do Vale do Paraíso para uma fazenda com registro limpo antes de chegar ao frigorífico.

O Ibama afirmou ter suspendido a proibição comercial na Vale do Paraíso no ano passado porque seu proprietário, Antonio Lucena Barros, apresentou um plano para restaurar a área desmatada. Barros também obteve uma liminar judicial suspendendo uma multa de cerca de R$19 milhões, da qual a agência disse que irá recorrer.

O advogado de Barros, Calebe Rocha, afirmou em nota que seu cliente está contestando as multas na Justiça e obteve uma liminar que suspende o pagamento da multa. Ele também afirmou que não houve venda de animais na parte do Vale do Paraíso que o Ibama havia bloqueado devido ao desmatamento.

Outra planta de propriedade da Darling Ingredients obteve gordura de um matadouro que confirmou ter comprado centenas de cabeças de gado em 2022 e 2023 do fazendeiro Bruno Heller, que a Polícia Federal descreveu como possivelmente o maior desmatador da Amazônia em uma investigação de 2023.

Em nota, o advogado de Heller, Vinicius Segatto, disse que a legislação ambiental brasileira é “excessivamente rigorosa” e que o processo criminal contra seu cliente está em andamento.

GORDURA PARA COMBUSTÍVEL

As companhias aéreas estão sob pressão para comprar mais combustível de aviação verde, que atualmente ainda é produzido em pequenas quantidades, para atingir as metas do setor de emissões líquidas zero até 2050.

Os defensores do uso do sebo como biocombustível afirmam que a demanda por ele por si só dificilmente levará os fazendeiros a desmatar a floresta tropical para cultivar suas pastagens devido ao seu valor econômico — menos de 3% do que os matadouros recebem por cada animal.

As importações da Diamond do Brasil foram certificadas como sustentáveis pela ISCC, uma certificadora internacional que aprovou a fábrica da Diamond para o Corsia.

Para ser elegível, a biomassa usada como combustível não pode vir de terras desmatadas depois de 2008 ou de áreas protegidas, mas o ISCC disse que não investigou a cadeia de suprimentos da Diamond porque considera o sebo um “subproduto” da indústria de carne bovina sob o Corsia.

Três especialistas que ajudaram a projetar o Corsia disseram que o programa permite que os produtores omitam a pontuação para emissões de carbono e desmatamento da floresta amazônica porque presume que a demanda por sebo dificilmente levará os pecuaristas a aumentar seus rebanhos.

A organização da aviação civil internacional, Icao na sigla em inglês, se recusou a comentar quando questionada se considerava o desmatamento na cadeia de fornecimento de sebo uma violação de seus padrões de sustentabilidade.

No entanto, a agência disse que está “monitorando constantemente a conformidade” de terceiros responsáveis pela certificação de produtores de combustível de aviação sustentável e agradece informações sobre “quaisquer desvios potenciais” para avaliação posterior.

(Com Reuters)

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